Ainda não tinha escrito nem publicado uma única linha sobre a polémica que envolve Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e a Seleção Nacional.
Não foi por falta de opinião. Foi por conhecer o desgaste que este assunto provoca e os riscos de entrar numa discussão em que, tantas vezes, o clubismo e a doença se sobrepõe à razão.
Mas, perante o castigo agora conhecido, decidi dizer de minha justiça.
Comecemos pelo princípio: Cristiano Ronaldo errou. E errou claramente.
É o capitão da Seleção Nacional e tem responsabilidades acrescidas. Abandonar o estágio foi uma atitude que não devia ter tomado. Pedir desculpa aos adeptos, aos portugueses e aos colegas foi um gesto importante, mas não apaga o erro.
Até aqui, estamos entendidos.
O que custa a compreender é o desfecho: 30 dias de suspensão e 255 euros de multa.
É isto? Depois de toda a polémica, dos comunicados e das explicações, este é o castigo?
Convenhamos: parece uma brincadeira, um gozo. Sobretudo quando falamos de uma infração que envolveu o abandono do estágio da Seleção.
Não defendo que Ronaldo esteja acima das regras. Defendo que a disciplina deve ser coerente e que as decisões devem transmitir uma mensagem clara.
Entretanto, Pedro Proença lembra-nos que o Conselho de Disciplina é um órgão autónomo e que não tem responsabilidade pelo castigo aplicado.
Muito bem. A autonomia deve ser respeitada. Mas isso não impede que se questione a forma como toda esta situação foi conduzida.
E o tal «mal-entendido» de que se falou?
Um mal-entendido não deveria ter sido esclarecido atempadamente, entre os intervenientes e em local próprio? Como se chegou a um processo disciplinar e a uma suspensão por causa de um mal-entendido?
A FEDERAÇÃO NÃO TEM DE DECIDIR O CASTIGO. MAS HÁ PERGUNTAS QUE CONTINUAM À ESPERA DE RESPOSTA.
E Jorge Jesus? Esse, então, mantém-se silencioso. O selecionador tem autoridade para tomar decisões, mas a liderança também se demonstra na forma como se esclarecem situações desta dimensão.
Ronaldo já cumpriu 19 dos 30 dias de suspensão e tudo aponta para o seu regresso à Seleção em novembro. Depois de tanto ruído, o impacto prático do castigo poderá ser mínimo.
E agora? Está tudo resolvido? Ficou esclarecido o que aconteceu? Ou vamos simplesmente fingir que nada se passou?
RONALDO ERROU. MAS A FORMA COMO TODO ESTE EPISÓDIO FOI GERIDO TAMBÉM MERECE CRÍTICA.
Não escrevo para defender incondicionalmente Cristiano Ronaldo, nem para atacar Jorge Jesus. A Seleção está acima de qualquer jogador, treinador ou dirigente.
Mas reconhecer o erro de Ronaldo não obriga a aceitar tudo o resto sem questionar.
O capitão deve assumir as suas responsabilidades. O Conselho de Disciplina deve fundamentar as suas decisões. A Federação deve esclarecer o que lhe compete. E o selecionador deve saber gerir situações que ultrapassam as quatro linhas.
A DISCIPLINA EXIGE RESPONSABILIDADE. A LIDERANÇA EXIGE CLAREZA. E A CREDIBILIDADE EXIGE EXPLICAÇÕES QUE FAÇAM SENTIDO.
Não tinha ainda escrito sobre este tema e sei que, ao fazê-lo, corro os riscos inerentes ao desgaste que provoca. Ainda assim, prefiro dizer o que penso a ficar calado apenas para evitar polémicas.
No fim, fica a sensação de que se fez muito barulho para um desfecho que pouco esclarece e quase nada muda.
Uma verdadeira palhaçada.
Não foi bem ao meu estilo, mas foi a minha expressão …