Um jogo de futebol é como que uma metáfora da vida de cada um de nós. Nele há vitória e derrota, aplauso e assobio, generosidade e mesquinhez, amor e ódio numa tal ordem que originam a sua natureza ficcional insólita e excepcional. Os grandes jogos de futebol são formas de arte dramática comparáveis às peças de teatro de Shakespeare, às óperas de Wagner ou aos bailados de Stravinsky. Num Estádio o ser humano liberta-se do seu labirinto vivencial e assume a sua condição inicial e primária de crente em mitos e heróis.
Este Benfica - Sporting foi um dos dérbis mais espectaculares da história do futebol português. Os leões precisavam de vencer por três golos de diferença para, tendo a mesma pontuação do rival, ultrapassá-lo na tabela classificativa do Campeonato Nacional. Na primeira volta o Sporting foi derrotado no Lumiar (1-3). O golo leonino foi conseguido por Travassos aos 89 minutos, mas o desalento da derrota impediu o festejo. Provavelmente, o Zé da Europa não imaginou o valor que pode ter um golo marcado a um minuto do final de um jogo de futebol.
O Sporting era treinado por Cândido de Oliveira e os “Cinco Violinos” e companhia não tremiam no momento de enfrentar o destino num campo de futebol. A semana que precedeu o dérbi foi de arrasar os nervos. Peyroteo andou adoentado com febre, mas os leões apresentaram-se muito fortes no campo do rival, o “bombardeiro” fintou a febre e depositou um póquer de ases na baliza do infortunado Contreiras. Espírito Santo ainda reduziu o marcador, mas os quatro golos do avançado leonino determinaram o destino do título de campeão.
O Sporting foi o Campeão Nacional por uma singela bola a mais que atravessou a fatídica linha da baliza do rival. Uma bola, uma bolinha… um berlinde! Os benfiquistas, desesperados, chamaram-lhe o “Campeonato do Pirolito”. Pegou de estaca até aos nossos dias essa do pirolito, aquela bebida gaseificada e doce que era feita à base de ácido cítrico e de essência de limão, com um berlinde de vidro a fazer de rolha. O futebol, metáfora da vida!
Ficha do jogo:
Campeonato Nacional da I Divisão (22ª jornada)
Benfica 1 - Sporting 4
Estância de Madeira (Campo Grande), 25 de Abril de 1948
Árbitro - Libertino Domingues (Setúbal)
Benfica - Contreiras, Jacinto e Fernandes, Moreira, Félix e Francisco Ferreira, Espírito Santo, Arsénio, Julinho, Corona e Rogério “Pipi”
Treinador - Lipo Hertzka
Marcador - Espírito Santo (75m)
Sporting - Azevedo, Álvaro Cardoso e Juvenal, Carlos Canário, Luís Moreira e Veríssimo, Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano
Treinador - Cândido de Oliveira
Marcador - Peyroteo (35, 41, 58 e 69m)
Na imagem, a capa da revista Stadium sobre o Benfica 1 - Sporting 4 em 25 de Abril de 1948.