O vil metal

Por André Pinotes Batista Via Record

Conta Suetónio que Vespasiano, censurado pelo filho Tito por taxar a urina, lhe aproximou uma moeda do nariz e lhe perguntou se o cheiro o incomodava. Tito respondeu que não. Pecunia non olet. O dinheiro não cheira.

Em Alvalade, a sangria de tanta história em tão pouco tempo chega a doer. Coates, Adán, Paulinho, Matheus Reis e Gyökeres já tinham saído. Com o fecho do mercado, cai a cortina aos pés de Diomande, Hjulmand, Morita, Trincão, Pedro Gonçalves e Daniel Bragança. Quase todos os rostos do ciclo mais vitorioso do Sporting dos últimos 50 anos desvaneceram-se em euros. Pote, sete títulos de leão ao peito, é a imagem de um adeus pesado, mas necessário.

Os cofres contam uma realidade mais alegre. As contas, antes das duas últimas saídas, apontavam já para 198 milhões de euros. Somados os negócios de Pote e Bragança, o valor potencial aproxima-se dos 230 milhões e, acrescidas outras variáveis já contratualizadas, poderá mesmo superar essa fasquia.

Na lista das maiores transferências de 2026/27, ainda sujeita a atualizações, 37 operações ultrapassavam os 45 milhões de euros e, em 25 delas, o comprador era um clube da Premier League. Fora de Inglaterra, esse patamar ficou praticamente reservado à Arábia Saudita e a cinco superpotências europeias: Real Madrid, Barcelona, Bayern, PSG e Milan. Abaixo delas surge uma fronteira quase perfeita nos 40 milhões. O Atlético de Madrid, que entregou esse valor ao Sporting por Hjulmand, acrescido de cinco milhões em objetivos, não o ultrapassou em qualquer outro negócio.

Somos todos vítimas do sucesso e reféns do vil metal.

O Sporting passou anos a transformar matéria-prima em ouro desportivo e agora fez a alquimia inversa: converteu essa geração dourada em capital, perto da sua cotação máxima. É uma gestão corajosa, fria e arriscada. Desmontou uma equipa que ainda tinha futebol para dar antes que os seus ativos deixassem de valer fortunas.

Daí que a tristeza do clube possa coexistir com a euforia da SAD: o dinheiro não substitui a memória nem os títulos, mas pode ter comprado a matéria-prima de uma nova geração vitoriosa.

E porque esta reconstrução resulta de uma opção estratégica que o ultrapassa, Rui Borges, o ourives da tasca, deve ser protegido, pois não pode carregar sozinho o seu peso. A direção, que escolheu mudar depressa, deve-lhe confiança e tempo. Os adeptos também.

Vespasiano tinha razão: o dinheiro não cheira. Todavia, o sucesso é o aroma do futebol. Quando esta nova alquimia chegar ao relvado, que cheiro terá? Os primeiros aromas animam, porém um bom perfume carece de tempo para se apurar.

1