Os primeiros passos de Issa Doumbia em Alcochete não foram passos, foram arrancadas. Quem o viu nos testes de velocidade e nos exercícios de potência na Unidade de Performance do Sporting rapidamente percebeu que ali não chegava mais um médio. Chegava uma máquina.

Com quase 1,90 metros e 84 quilos bem distribuídos, o internacional sub-21 italiano não precisou de período de adaptação física: chegou em forma, pronto para o choque, e deixou os técnicos de Rui Borges a anotar números que, nas últimas temporadas, poucos reforços conseguiram igualar. Não é por acaso que o clube desembolsou 20 milhões de euros pelo seu passe, mais 6 em variáveis (3 pelo sucesso coletivo, 3 pelo rendimento individual), uma aposta clara num perfil que o plantel não tinha.
Onde Morita é leveza e rotação, Doumbia é presença e empurrão. Onde o japonês desliza, o italiano atravessa. E essa diferença já se sente nos treinos, onde o novo '8' leonino parece ter um motor a gasolina num meio-campo habituado a motores mais suaves.
Mas não se pense que esta chegada em alta rotação é obra do acaso. Desde o momento em que foi oficializado como reforço, Doumbia transformou as suas redes sociais num diário de ginásio: semana após semana, publicou imagens de exercícios de força, agachamentos, cargas, suor, tudo para que, quando pisasse o relvado de Alcochete, não houvesse surpresas. E funcionou.

Na apresentação, o médio não teve falsas modéstias. Comparado muitas vezes a Paul Pogba pela estampa e pela forma de ocupar o terreno, Issa descreveu-se com a mesma frontalidade com que entra nos lances: "Sou físico, técnico, intenso, rápido e ágil."
Quem o vê nos primeiros dias na Academia jura que não faltou uma vírgula à descrição.
Se nos testes físicos Issa Doumbia desliza pela relva como poucos, há um capítulo em que o gigante italiano ainda tropeça: a comunicação. Fluente em italiano e com um inglês arranhado, o médio do Sporting sabe que, para corresponder aos 20 milhões investidos, não basta correr mais e mais rápido, é preciso perceber, e ser percebido, por Rui Borges.
Por isso, enquanto nos ginásios de Alcochete já deixou a sua marca, nas salas de estudo e nas conversas à beira do relvado trava-se uma batalha igualmente decisiva. O novo '8' leonino está a acelerar também na aprendizagem da língua, porque o que o treinador pede para o meio-campo exige mais do que músculo: exige sintonia.
E que meio-campo será esse? Bem diferente do que os adeptos se habituaram a ver com Morita. O japonês era o cérebro, o homem que pautava os ritmos da equipa com a sua leitura de jogo diferenciada. Doumbia é outra coisa: mais explosivo, mais vertical, mais arriscado no remate. Um perfil atlético que promete dar ao Sporting um meio-campo mais musculado, mais incisivo e com outra presença física na zona central.
Os números do italiano no Veneza, na última temporada, são prova disso: 10 golos e 5 assistências, números que ajudaram a equipa a conquistar a Serie B. Agora, em Alvalade, espera-se que repita a fórmula — e que, com o tempo, encontre também as palavras certas para entender Rui Borges e fazer os companheiros entenderem-no.
Se nas pernas já não há dúvidas, na língua o trabalho está a começar. Mas quem conhece a dedicação de Issa Doumbia sabe que, mais cedo ou mais tarde, ele também vai correr nesse capítulo.
Boa sorte e compromisso total, Issa Doumbia.